O Jeitinho de Aceitar

O problema nunca foi só a política.

É mais confortável apontar o dedo pra Brasília e dizer que lá é o centro de tudo. Corrupção, desmando, jogo sujo. Parece distante, quase outro mundo. Mas não é.

A verdade é mais incômoda.

A política não inventa comportamento. Ela amplia.

O sujeito reclama do político corrupto… e fura fila quando pode.
Se revolta com desvio de dinheiro… e aceita “um troquinho por fora” sem nota.
Critica o sistema… mas dá aquele jeitinho quando convém.

Não é a mesma coisa em tamanho, claro. Mas é a mesma lógica.

E é aí que mora o problema.

A corrupção grande não nasce grande. Ela cresce em terreno fértil.
E o terreno fértil é a normalização.

Primeiro vem o pequeno desvio.
Depois a justificativa.
Depois o costume.

Quando vira costume, ninguém mais estranha.

E quando ninguém estranha… qualquer coisa passa.

A gente gosta de pensar que existe uma linha bem clara entre “nós” e “eles”.
Mas essa linha é mais borrada do que parece.

O político corrupto não caiu do céu.
Ele saiu de algum lugar.
Cresceu em algum ambiente.
Aprendeu, pouco a pouco, que certas coisas não tinham consequência.

E aí chegou lá em cima fazendo a mesma coisa — só que com mais poder.

O sistema não começa no topo.
Ele é empurrado pra lá.

Claro que existe responsabilidade maior de quem governa.
Mas fingir que o problema é só deles é um tipo confortável de cegueira.

Porque se o erro tá só lá… eu não preciso mudar nada aqui.

E é aí que tudo se mantém.

O mais curioso é que o brasileiro não aceita ser chamado de corrupto.
Mas aceita viver cercado por pequenas corrupções diárias, como se fossem normais.

É um tipo de convivência silenciosa.

E silêncio… sustenta muita coisa.

No fim, o problema não é só a política ser suja.
É o quanto a gente se acostumou com a sujeira.

Porque quando o incômodo desaparece…
o desmando vira rotina.

E rotina… ninguém questiona.


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