Displasia Coxofemoral: uma conversa aberta e direta sobre o assunto

setembro 6
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Conhecer mais e melhor sobre a Displasia pode trazer mais qualidade de vida para o seu cão.

Se você chegou até esse post, possivelmente busca informações sobre Displasia Coxofemoral em cães. Eu também fiz a mesma pesquisa antes mesmo de saber que o meu Oliver tinha a doença, já que eu buscava, principalmente, formas de prevenir a Displasia Coxofemoral.

Existe como que uma nuvem sobre o assunto, pois sabemos que algumas raças possuem mais possibilidade de desenvolver a Displasia Coxofemoral – Golden Retriever, Labrador, Pastor Alemão, Rotweiller – mas ainda acreditamos que laudos negativos dos “pais” dos nossos cães garantirão que eles não terão a doença.

A maior parte da literatura que existe a respeito do assunto na internet é produzida por canis ou mesmo por sites de pet shop, que tratam o tema de maneira indireta e nada profunda.  É claro que todo conteúdo é importante, ainda que traga o básico sobre o assunto. Mas se você quer realmente entender a Displasia para cuidar melhor do seu cão, acredito que os 4 anos que eu convivo com o diagnóstico do Oliver podem ser de grande ajuda para você que é tutor ou tutora como eu. Confesso que a preocupação em trazer qualidade de vida pro meu cachorro acabou me fazendo aprender muito sobre a Displasia após o diagnóstico do Oliver em 2016 (aqui eu conto um pouquinho de como foi essa descoberta).

Meu objetivo com esse post é trazer pra você informações mais claras sobre Displasia Coxofemoral, numa linguagem que seja acessível, falando de tutora para tutores, a começar pela hereditariedade da doença. Sim, Displasia não se adquiri, se herda. Além disso, quero compartilhar o dia a dia como tutora de um cão que possui essa má formação óssea, mas que, com os cuidados básicos e importantes, vive uma vida equilibrada, mesmo com as limitações que a doença impõe.

Selecionei os tópicos mais importante para abordar com você por aqui. Mas, se tiver alguma dúvida, ou tiver alguma experiência que queira compartilhar, não hesite em me contactar.

  1. Displasia é uma doença hereditária.
    • Como disse anteriormente, Displasia é uma doença genética, ou seja, se herda. Se você não sabe o que é a Displasia e como ela se apresenta, sugiro que leia esse post sobre a fisiologia da doença antes de seguir por aqui. A maior parte dos canis apresentam laudos negativos para displasia dos pais (matrizes e padreadores). Só que, se alguém na linhagem do seu cão tiver a doença, de alguma forma, ela poderá se manifestar, pois ela é recessiva. Uma vez, um Médico Veterinário me explicou que, devido à busca da pureza das raças, em algum momento, na linhagem dos cães, haverá algum cruzamento entre parentes. Isso faz com que muitas raças tenham doenças “típicas”. No caso de Golden Retriever, por exemplo,  Displasia Coxofemoral, câncer e alergias de pele acabam sendo doenças frequentes.  Por isso, é mais comum existir um Golden com Displasia do que sem. Triste realidade, não é mesmo? Sobre esse assunto da pureza das raças x suas doenças, inclusive, há um vídeo bem interessante que deixarei aqui para você assistir. Ele está em inglês.
    • Outro ponto importante a destacar é que ainda é autorizado o cruzamento de cães que possuem displasia no grau leve (sim, acredite). Apenas os com grau moderado e grave que não são considerados aptos para reprodução. Ou seja, se estamos falando de algo que pode ser passado de forma hereditária, de um cão possui Displasia, mesmo que em grau leve, não há nada que exclua a possibilidade de um filhote desse cão vir a desenvolver o mesmo problema.
  2. Fatores alimentares e de ambiente podem piorar a displasia, mas raramente serão a sua causa.
    • São raros os casos de cães saudáveis que desenvolvem a displasia tardiamente por conta do ambiente, peso ou outro fator (Displasia Adquirida), mas existem. Normalmente, isso acontece numa fase mais adulta do cão. Por isso, a melhor forma de enfrentar essa questão é acompanhar o desenvolvimento do seu cachorro. Cães de porte grande tendem a ter um “estirão”, um crescimento mais acelerado nos primeiros meses de vida. Se você mora em apartamento ou em local onde o piso é liso e escorregadio, será super válido colocar alguns tapetes antiderrapantes no ambiente, em especial no local onde o cão mais fica, deita e levanta. Reforço: isso não vai impedir a displasia. Mas proporcionará um desenvolvimento mais seguro, sem sobrecarga dos membros, em especial do quadril. Evite, também, que seu cão fique correndo demais, ou mesmo subindo e pulando de sofás e camas.
  3. O diagnóstico precoce ainda é a melhor forma de dar qualidade de vida ao seu cão.
    • Como falamos anteriormente, a displasia coxofemoral é, primordialmente, genética e hereditária. Sabendo disso, você precisa acompanhar o desenvolvimento do seu cão e se programar para realizar os exames do quadril quando ele completar um ano, no mais tardar dois anos. Eu descobri a Displasia do Oliver em 2016, quando ele estava para completar 2 anos. O exame definitivo, com a classificação do grau da Displasia, fizemos em 2018, um ano após a descoberta da má formação óssea. A grande questão é que Oliver era, digamos, assintomático. Pelo menos aos meus olhos de leiga. Para um Médico Veterinário, com certeza ele não era assintomático. Detalhes na forma de andar, na passada e na forma dele se levantar já mostrariam que ele seria possível candidato ao diagnóstico de Displasia. Eu decidi fazer o exame por curiosidade e acabei encontrando o diagnóstico, que veio acompanhado, também, de outras complicações que costumam acompanhar a doença: artrose e outros nomes complicados. Luxação ele não tinha, mas conheço muitos outros cães da mesma idade ou mais novos que já estavam nesse grau de diagnóstico. Isso significa que o cão já sente dor e precisa de cuidados adequados. Quero reforçar com você: seu cão pode ter displasia e ser assintomático. Pode não demonstrar pra você que sente dor (ou talvez você não entenda os sinais). 70% dos animais que possuem a doença não demonstram! Sentir dor não é chorar, mancar ou coisas do tipo. Muitas vezes, eles demonstram dor numa forma de levantar mais lenta, na dificuldade de encontrar uma posição pra dormir, na forma como andam. Há vários sinais que um Médico Veterinário poderá olhar com mais propriedade.
    • Há alguns mitos envolvidos nos sintomas da Displasia. Algumas pessoas dizem assim: “mas meu cão deita de pernas abertas, então ele não tem displasia”. Mito! Oliver sempre deitou de “sapinho” e tem Displasia em grau máximo! Da mesma forma que não deitar de sapinho não significa que seu cão tem a doença. Andar rebolando não é um sinal de existência ou ausência da doença. A melhor maneira de saber se o seu cão tem ou não a Displasia Coxofemoral é o exame radiográfico orientado por um especialista. Quanto antes você diagnosticar, antes irá conduzir os cuidados de forma a dar ao seu cão uma vida saudável e uma velhice estável.
  4. Displasia não tem cura. Displasia tem cuidado e acompanhamento. Algumas cirurgias indicadas para a doença como a Denervação ou a Retirada da Cabeça do Fêmur não curam a Displasia. Ambas serão realizadas para dar qualidade de vida ao animal e, principalmente, amenizar as dores que a doença causa. De qualquer forma, o que eu indico pra você é que não leve o seu cão pra mesa de cirurgia na primeira oportunidade. Converse, informe-se, não apenas com o Médico Veterinário Ortopedista, mas com algum Médico Veterinário Fisioterapeuta, que seja especialista em Reabilitação, pois, muitas vezes, uma fisioterapia adequada poderá retardar uma intervenção cirúrgica ou mesmo evitá-la.
  5. Reabilitação pode trazer qualidade de vida.
    • A minha opinião é definitiva: a reabilitação TRAZ qualidade de vida. E você deve lançar mão dela, mesmo que não tenha condições de pagar sessões de fisioterapia. Sabe porque? Porque há várias coisas que você pode fazer em casa e nos passeios diários. Uma coisa poderosíssima pra você fazer em casa é a compressa de água morna na região dos quadris. No Oliver, eu faço sempre em três pontos: na região dos quadris (na dobra da perna, na lateral do quadril), na coluna (em especial na lombar, onde ele sente dores) e no ombro direito, onde ele tem uma osteocondrite. Passar pela avaliação com um fisioterapeuta vai te mostrar se seu cão sente dores em outros locais. E isso é bem comum em cães com Displasia. “Por que, Lu?” Vou te explicar. Os cães com Displasia tem um quadril mal formado. Ou seja, o quadril dele “não funciona direito”. Isso significa que outra parte do corpo vai ter que trabalhar mais para que ele fique bem. Como as patas lá de trás não são tão certinhas, as patas da frente acabam sendo sobrecarregadas para que ele ande bem. Da mesma forma a coluna. Pensa comigo: sabe quando você machuca um pé e precisa andar mancando? Sua perna boa acaba ficando mais dolorida por ter que “carregar” a outra que não está podendo apoiar direito. É essa lógica. Entende agora por que é tão importante cuidar desde cedo? Se você entende como seu cão se sente e dá a ele atividades físicas e uma vida dentro de limites importantes para quem tem Displasia Coxofemoral, quando ele ficar mais velho, ele terá condições de se sustentar nos quatro apoios, ao invés de arrear por não suportar mais carregar o quadril defeituoso.
    • Infelizmente, muitos cães ainda são diagnosticados na fase adulta ou idosa, quando já não conseguem mais andar. É basicamente isso: o quadril é dolorido demais, e a coluna + as patas da frente já cansaram de tanto carregar o quadril. Informe-se! Cuide do seu cão. Prevenção é o segredo de uma vida saudável. Vou deixar aqui um Instagram maravilhoso sobre Reabilitação que tem muitas informações pra você: Acuvet Veterinária. Se você mora em Vitória/ES e região, terá como recursos a Reabilitar Veterinária, a Integravet e a Heloísa Dellacqua. Se mora em São Paulo, terá a Ma Vie Reabilitação e a Stella Fisio Vet.
  6. É importante ter suplementação e acompanhamento ortopédico. Quem nunca ouviu falar de Condroitina e Glucosamina? UCII? Sucupira e Boswellia Serrata? Tenho certeza que você já ouviu falar de algum desses medicamentos. Aqui já fizemos uso de UCII manipulado lá no início do tratamento. Depois usamos o Cosequin por um longo período e agora estamos fazendo uso do Chondroitin and Glucosamine with MSM da Now, associado ao uso de Cúrcuma. A suplementação dá ao animal vitaminas e minerais que ajudarão na prevenção das cartilagens, da saúde óssea e no controle de dores crônicas. Nada de ficar dando Dipirona, Tramadol, Anti-inflamatórios e Corticóide pro seu cão, se você pode fazer continuamente e antecipadamente uma prevenção mais saudável.
  7. Mantenha as patas do seu cão sempre bem tosadas, em especial na região dos Coxins. Coxins são aquelas almofadinhas pretas que eles possuem na parte de baixo das patinhas. No Oliver, o pêlo ali costuma crescer rápido, não sei como é com o seu cão. Por isso, eu sempre mantenho bem tosadas, para evitar que ele escorregue. Não use sapatinhos! Há vários e vários relatos de cães que sofrem acidentes por causa deles. Dê preferência aos tapetes em casa, se seu piso é liso. Na Multicoisas, você consegue comprar aqueles tapetes de rolo que são super práticos e você compra sob medida, em especial para áreas da casa que não estão cobertas por algum tapete de decoração. 
  8. Mantenha seu cão no peso ideal. Já conversamos sobre a sobrecarga que seu cão pode ter por ter que “carregar” um quadril mal formado. Imagine essa sobrecarga se seu cão ainda estiver gordinho? Não há estrutura muscular e óssea que aguente. Por isso, além de estar no peso ideal, ele precisará estar fitness (risos). Sim! Exercícios regulares vão mantê-lo ativo e desenvolver a musculatura que é extremamente importante para sustentar o quadril e dar força ao seu animal.
  9. Exercícios na areia e na água nem sempre são bons.
    • Outro mito, galera. Nossa, eu já ouvi muitas vezes a respeito disso: “o Médico disse pra fazer exercício na areia pra fortalecer a musculatura”. Pare e volte comigo no que expliquei sobre a Reabilitação e a sobrecarga dos membros posteriores. Se seu cão está caminhando mal e está sobrecarregando os membros da frente, levá-lo pra andar na areia vai só piorar o quadro. Isso não é um padrão.
    • De fato, exercícios na água e na areia, se bem conduzidos, trazem bem menos impacto do que botar seu cão pra correr no asfalto ou no cimento (nem cogito falar de correr no piso, porque isso não existe, hein! Nunca deixe seu cão correr no piso liso. Nunca, nunca, nunca). Mas, de qualquer forma, seja na areia, seja na água, esses exercícios vão exigir do seu cão e se ele não estiver bem, ele vai sentir dor do mesmo jeito. Por isso reforço a necessidade da gente prestar atenção no nosso cão e ver os sinais que ele está nos dando. Depois que você leva ele à praia ou à piscina, ele fica mancando? Tem dificuldade pra levantar? Observe tudo isso para escolher a atividade ideal, bem como a quantidade dessa atividade. Acredite: a maioria dos cães não possuem limite, nem mesmo com dor, em especial os que amam água como Oliver. Se deixar, ele fica o dia inteiro nadando! Mas como tutora consciente, eu o deixo no máximo 1 hora, a depender de como ele está se sentindo.

Eu garanto a você que me esforcei para este texto não ficar tão longo, mas não teve jeito. São muitas informações importantes que não poderia deixar de abordar com você. Acredito que, a depender da sua situação, você ainda tenha dúvidas que não foram tratadas aqui. Por isso, eu me coloco à disposição pra conversar e te ajudar no que eu puder. De qualquer forma, eu sempre reforço que nada substitui um acompanhamento Médico Veterinário qualificado. Tenha sempre um(a) Veterinário de confiança para te orientar e dar as diretrizes de cuidado e tratamento para o seu animal. Vai valer a pena.

Grande abraço!

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